A mente de um terrorista por Silvia Helena Cardoso, PhD e Renato M.E. Sabbatini, PhD

Nas últimas duas décadas, mentes sombrias têm se espalhado pelo mundo com uma missão consciente e bem definida: provocar profundo medo e ansiedade, dor, desespero e muitas mortes, incluindo as delas próprias, ao se explodirem juntamente com o alvo escolhido. Eles são os terroristas suicidas.

Esse tipo de terrorista provoca um dano físico devastador ao ser realizado em áreas públicas. Eles são motivados por razões políticas, religiosas ou étnicas, e seu maior ideal é produzir um efeito psicológico negativo em uma população inteira, e não apenas nas vítimas de seus ataques. Quinze organizações terroristas diferentes em doze países têm abrigado táticas suicidas nos últimos 20 anos. Em fevereiro de 2000 ocorreram aproximadamente 275 incidentes suicidas (5).

Acreditando que os fins justificam os meios

Muitas podem ser as causas que motivam um terrorista suicida: a expulsão de estrangeiros, provocar mudanças políticas, realizar retaliação e vingança, ganhar projeção local ou global, construir uma imagem de poder, angariar apoio do público, recrutar novos voluntários, preservar território, cultura ou religião, etc.

Qualquer que seja a causa que o terrorista invoca, ele é firmemente impulsionado pela crença de que a vitória da causa deve ser alcançada a qualquer custo. Os terroristas, em nome da religião, costumam justificar a violência em nome da autodefesa ou para vingar as comunidades religiosas a que pertencem.  “Eles acreditam que existe uma diferença entre o certo e errado, mas também que se fizerem alguma coisa em nome da causa, ela será justificada, mesmo que seja errada”, diz Rona Fields, uma psicóloga americana que tem estudado terroristas por mais de 30 anos. Yoram Schweitzer, do Instituto Internacional para Contenção do Terrorismo, argumenta que a religião não é inocente, mas ela não provoca violência por qualquer razão. Ele diz: “Isso só acontece devido a um conjunto peculiar de circunstâncias – políticas, sociais e ideológicas”.

Estas circunstâncias abrem o caminho para formas de violência ilimitada através da racionalização em nome de um bem comum. Assim, até mesmo as ações mais depravadas acabam sendo justificadas por uma causa supostamente digna e humana. Com argumentos irracionais ou ilógicos, o ser humano é capaz de justificar quase tudo. Adolf Hitler, que usou o terror como uma tática política, mostrou ao mundo que os fins justificam os meios, com seu objetivo de “salvar ” a raça alemã através do exterminío dos imperfeitos e dos politicamente  inconformados. Nos dias atuais, os terroristas parecem operar da mesma forma.

Examinando a psique do terrorista

O perfil do terrorista suicida não é o de um psicopata ou de um bandido, como se acredita. Normalmente ele é um ser humano como qualquer outro, com princípios morais e religiosos. O psiquiatra mulçumano Dr. Eyad Sarraj acrescenta que os terroristas islâmicos são “geralmente pessoas tímidas, introvertidas e não violentas, de uma forma geral”.

Então por que estes indivíduos estariam dispostos a se juntar a um grupo terrorista? O Dr. Jarrold Post, da George Washington University, e ex-chefe da Central Intelligence Agency’s Center for Analysis of Personality and Political Behavior in Terrorism, acha que a principal razão é de natureza social. Como acontece com todos os seres humanos, ele necessita pertencer a um grupo que o aprove, e encontrar seu lugar dentro dele. A missão do terrorista agora se torna um objetivo novo e valioso em sua vida, seguindo os ditames de seu novo grupo social. Seguindo este novo caminho, eles encontram um senso renovado para suas vidas e se sentem importantes e comprometidos. Eles sentem que se tornarão heróis, que seus parentes e colegas irão chorar de emoção em razão de sua coragem absoluta em morrer por uma causa. Eles irão desaparecer, mas estão convictos agora que deixarão suas marcas em algum lugar, tornando-se o orgulho de todos aqueles que não morreram.

Em todo o mundo islâmico pode-se ver fotos desses auto-denominados “mártires” nas paredes e nos muros, glorificando e sancionando socialmente suas ações. A motivação mais forte para o terrorista suicida é dada por sua crença religiosa, ou no mínimo por sua interpretação da fé religiosa. A ele é prometido pelos líderes religiosos radicais que morrendo por essa causa, serão recompensados pela glória e pela ascenção ao Paraíso, consagrando-se como um mártir ungido por Deus. Assegurar essa morte é, portanto, uma pré-condição para sua missão. Rasheed Saka, um terrorista palestino preso antes de conseguir concretizar uma missão suicida, em uma entrevista, declarou: “Eles me disseram que os mártires vão para o paraíso e se casam com 72 virgens, e que Deus irá considerá-los mártires e perdoar seus pecados”.

Os terroristas são loucos? Especialistas na análise do terrorismo acham que não. “Eu não conheço um único caso de terrorista suicida que seja realmente psicótico,” diz o Dr. Ariel Merari, um psicólogo israelita de Universidade de Tel-Aviv, que estudou cada terrorista suicida no Oriente Médio por 18 anos ou mais. “A única anormalidade no perfil psicológico do terrorista suicida parece ser uma falta de medo na hora do ataque […] Eles têm ideais e agem em função dos mesmos.”

Davis Long, ex-diretor assistente da seção de anti-terrorismo do U.S. State Department afirma que até hoje nenhum estudo comparativo sobre a  psicologia dos terroristas foi capaz de revelar um perfil psicológico específico. O que parece de haver em comum entre eles é que os terroristas tendem a ter baixa auto-estima antes de se juntarem à organização, e que são atraídos por grupos liderados por pessoas carismáticas e dominadoras. Não surpreendentemente, também gostam de se arriscar.

Pesquisas sobre a psicologia do julgamento moral tem nos permitido a entender melhor os motivos por trás das ações terroristas. Como acontece com muitos fenômenos sociais de dinâmica de grupo, eles agem no sentido de evitar a reprovação do grupo social por não terem mostrado coragem e determinação na realização de atos violentos dele esperados, ou no sentido de obter recompensas psicológicas ou sociais do grupo, por terem realizado. Isso ajuda, inclusive, a reforçar na mente do terrorista a crença de que o que ele irá fazer é “o certo”.

Obviamente, as noções do que se constitue em certo ou errado dependem da cultura e da religião. No entanto, é amplamente comprovado que os padrões de julgamento moral podem ser mudados forçadamente por meio da interação com um grupo dominante. Para isso, é vital que o grupo tenha um inimigo claramente definido. O Prof. Post argumenta que a psicologia dos terroristas é muito polarizada. “É uma psicologia dualista. Somos nós contra eles, os bons contra os maus,” ele diz. O grupo de terrorista sempre pertence ao “lado do bem”; o resto do mundo é o mal. O inimigo pode ser o governo, uma nação, um grupo étnico, ou um sistema inteiro de ideais tais como a civilização ocidental.

Como se faz a mente de um terrorista

Uma importante questão que se coloca é: como um ser humano pode desafiar um dos mais poderosos instintos, o de sobrevivência ou de autopreservação, em nome de crenças religiosas ou ideologias políticas?

Como a psicologia não foi capaz de encontrar evidências de que terroristas que executam atos suicidas violentos são insanos (na verdade a evidência é contrária), devemos assumir que o seu comportamento é o resultado de uma forte e efetiva doutrinação: ou o que poderíamos chamar de “produção sistemática da mente do terrorista” por um grupo político ou religioso, usando técnicas consagradas pelo tempo para recrutamento, persuasão, e conversão.

Pesquisas sobre aprendizagem social tem evidenciado o papel do chamado “condicionamento comportamental e cognitivo”. Um especialista em terrorismo, Dr. Bernard Saper, em um artigo intitulado “On Learning Terrorism“, argumenta que o compromisso pelo terrorismo é amplamente produzido, intensificado e sustentado nos recrutas através de sofisticadas técnicas de condicionamento. Ele descreve como essas técnicas são usadas para doutrinar e executar atos de violência e terror e como é montado um elaborado sistema de incentivos para financiar grupos guerrilheiros e movimentos revolucionários. Muitas vezes esta doutrinação se estende a parentes e amigos de terroristas.”Eu estou muito feliz e orgulhoso do que meu filho fez e, francamente, estou com um pouco de inveja,” disse Hassan Hotari 54, pai de um jovem que fez um ataque suicida em uma discoteca em Tel-Aviv. “Eu desejaria ter feito o bombardeio. Meu filho obedeceu aos desejos do Profeta. Ele se tornou um herói. Diga-me: o que mais um pai poderia querer ?”.

De acordo com William Sargant, autor do notável livro “The Battle for the Mind” (A Batalha pela Mente), parece existir uma “fisiologia para a conversão e a  lavagem cerebral ” ou “controle do pensamento”. Lavagem cerebral tornou-se um termo popular nos anos 50s, para descrever as técnicas usadas pelos soviéticos e comunistas chineses e coreanos para converter soldados americanos capturados ou opositores políticos para suas ideologia políticas.

A teoria de lavagem cerebral sustenta que a única forma de forçar uma mudança de atitudes em adultos é limpar as suas mente – apagando crenças existentes por meio de uma combinação de indução de estresse mental e tensão nervosa, receptividade à sugestão, e exaltação frenética da massas. Sargant argumenta que essas técnicas têm sido usadas através dos tempos por agentes bem diversos, tais como pastores religiosos e treinadores de futebol americano. Através da lavagem cerebral, novas idéias podem ser introduzidas e firmemente fixadas mesmo em mentes que não estejam dispostas a recebê-las de início. Não é coincidência que as religiões fundamentalistas de todos os tipos usem essas técnicas, oferecendo uma mistura de salvação, redenção, promessas de recompensa eterna no céu, sentimentos de culpa, timidez e inadequação.

Um testemunho impressionante dessa conversão é mostrada por Abd Samad Moussaoui, o irmão de um homem suspeito de planejar o seqüestro nos ataques terroristas de 11 de setembro. Em 4 de outubro de 2001 ele deu uma entrevista na CBS “Ele um dia amou a América, mas foi lavado cerebralmente, foi feita uma lavagem cerebral por um grupo radical islâmico.Ele gostava de calças jeans, basquetebol e do cantor Bruce Springsteen, mas passou a odiar os Estados Unidos após se juntar ao grupo” (1).

A tarefa de produzir a mente do terrorista é facilitada enormemente quando se inicia na infância. As crianças e jovens são condicionados a pensar somente como seus pais ou líderes, ou até mesmo a parar de pensar. A Dra. Fields acredita que o terrorista suicida atual tem uma noção de certo e errado baseada fundamentalmente na opinião pessoal dos líderes de suas comunidades. “Constata-se uma total limitação na capacidade que eles têm de pensar por si próprios”.

Recentemente, o mundo assistiu espantado a pelotões armados e uniformizados de crianças de tenra idade, recrutadas por partidos radicais islâmicos, como o Hezbollah, marchando pelas ruas de Beirute e cantando a sua disposição de morrer por um líder ou por um Deus. O julgamento moral de crianças e adolescentes é ainda muito flexível e pouco formado, portanto é fácil convencê-los a fazer quase tudo, dado o controle que têm sobre eles. Deste modo, os métodos trabalhosos da lavagem cerebral de adultos nem são necessários com estas crianças. Sargant escreve eloqüentemente como serão essas crianças quando se tornarem adultas:

“[Elas] irão atuar com a firme convicção de que são inspiradas pelos mais altos e nobres motivos. Os mais gentis, generosos e humanos dos homens podem ser condicionados a cometer atos que parecem aterrorizantes, em retrospecto, a todos as pessoas que tenham sido condicionados de forma diferente. Muitas pessoas sensíveis se prendem a visões estranhas e cruéis porque elas foram implantadas em seus cérebros em uma idade precoce”.

Em nossa opinião, isto dá uma visão arrepiante do futuro, porque será muito mais difícil recondicionar voluntários de terroristas suicidas que foram doutrinados e treinados quando eles eram ainda bem jovens.

Limpando a mente

Quais são as bases científicas para as técnicas de controle da mente descritas por Sargant? Ele e outros pesquisadores que investigam mudanças de atitudes propuseram que o fenômeno descoberto pelo psicólogo russo Ivan Pavlov no início do século XX poderia ser a explicação para isto. Pavlov descobriu acidentalmente que cães que foram submetidos a situações extremamente estressantes (como quando eles quase se afogaram em suas gaiolas durante uma enchente no porão do laboratório de Pavlov em São. Petersburgo perderam todo o condicionamento que eles haviam adquirido previamente. Além disso, os cães passaram a mostrar alterações permanentes no temperamento e sensibilidade emocional. Pavlov foi posteriormente capaz de condicionar os cães com comportamentos inteiramente novos e até opostos àqueles que foram perdidos previamente. A polícia comunista posteriormente adequou os achados de Pavlov para desenvolver técnicas para modificação comportamental e de atitude para inimigos do regime (esta foi uma das razões pelas quais Lênin ordenou que a medicina psicológica russa fosse baseada nos conceitos e teorias de Pavlov).

Até agora, entretanto, nenhuma pesquisa foi realizada sobre quais são as bases neurais da modificação radical do comportamento usando estes métodos. Experimentos com escopolamina, um agente anestésico usado para induzir confissões durante e após a II Guerra Mundial (o chamado “soro da verdade”) indicou o envolvimento de memória colinérgica frontal e subcortical e sistemas de controles comportamentais no fenômeno de lavagem cerebral.

 

A técnica de lavagem cerebral é muito usada pelos militares para aniquilar a personalidade dos recrutas para depois reconstruí-la à sua própria imagem. Nesta foto vemos um candidato a oficial aviador na Pensacola Naval Air Station, sendo humilhado pelos instrutores.

Foto por Joel Sartore – Mechanics of emotion. In: R. Restak (ed.) Misteries of the Mind, National Geographic, Washington D.C., 2000. 

O que podemos fazer

Os terroristas não parecem ser indivíduos insanos; eles são produtos de um sistema insano, motivado basicamente por um fanatismo intenso e cuidadosamente desenvolvido. O Islã condena o terrorismo e é muito rígido com suicidas, acreditando que eles serão condenados a repetir suas mortes por toda a eternidade. Entretanto, um número cada vez maior de pequenos grupos de extremistas religiosos distorce as doutrinas pacíficas daquela religião e tenta limpar tantas mentes quanto for possivel através das técnicas de lavagem cerebral.

Como parte destes esforços, os líderes terroristas tolhem a liberdade de expressão não somente em seus países, mas em todo o mundo. Terroristas suicidas podem achar que são “lutadores da liberdade”, mas a liberdade implica em visibilidade. Estes guerreiros invisíveis atuam na sombra do mundo secreto e usam táticas covardes e devastadoras de mutilar e matar pessoas inocentes e não combatentes, tudo pelo “bem da causa”.

Um dos objetivos de se analisar a psicologia dos  terroristas é descobrir meios de se deter ou prevenir ataques. A melhor forma de se conseguir isto parece ser tentar entender e respeitar a cultura de cada país e suas ideologias políticas, bem como respeitar a soberania que as nações devem ter para definir suas próprias formas de viver. Uma outra maneira é procurar estabelecer leis e implementar a proteção aos direitos humanos em nível local, regional e global. Os Estados Unidos necessitam entender os seus Timothy McVeighs e as suas crianças, que, cada vez mais, estão matando seus coleguinhas e professores nas escolas americanas. O islã precisa questionar e enfrentar seus fanáticos religiosos e mostrar a eles quanto sofrimento eles estão causando por suas interpretações distorcidas da fé religiosa.

E como fazer isso? Salman Rushdie tem uma resposta: “Não fique aterrorizado. Não deixe o medo ser uma regra em sua vida. Mesmo se você estiver assustado.”

Referências

  • CBS’ 48 Hours” – Man’s Brother Talks of Brainwashing. Website: http://dailynews.yahoo.com/h/ap/20011005/us/attacks_suspect_s_brother_1.html

  • Pavlov, I.P. – Lectures on Conditional Reflexes: the Higher Nervous Activity Behavior of Animals. Vol1 – Lawrence and Wishart, London; 1928.

  • Saper, B.: On learning terrorism. 1988 Vol 11(1) 13-27

  • Sargant, W.: Battle For The Mind. A Physiology of Conversion and Brain Washing – Pan Books LTD 7th printing, 1970.

  • Schweitzer, Y. – A lecture presented in the International Conference on Countering Suicide Terrorism at ICT, Herzeliya, Israel on 21st February, 2000

  • A General Review of the Chemistry and Utility of Scopolamine – http://www.ucalgary.ca/~bali/chem353/project/00final/00final.htm

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